downton_abbey-01É interessante perceber como nossa percepção sobre as coisas muda de acordo com nosso envolvimento emocional. Comecei a assistir Donwton Abbey há algumas semanas e logo me apaixonei pela série.

Há algo na encenação de formalidades com um enredo a la Jane Austin que me fisgou. Eu adoro essas séries que mostram outras épocas, como se nos permitissem conhecer um passado que fica chato quando contado em uma aula chata de História. (Escrevi “aula chata” mas não gostaria de generalizar, as aulas de História eram minhas preferidas quando o professor era bom, mas já tive professores mediocres capazes de transformar qualquer coisa em algo chato.)

Mas enfim, todos aqueles vestidos, aquela partaria, aquela formalidade… essas coisas me fascinam. E eu, inocente, fui me envolvendo com a história e seus personagens, quase como se participasse das suas atividades.

Só que a série toma um rumo diferente quando o último capítulo da primeira temporada é encerrado com o anúncio do patriarca a uma platéia que, até então, se diverte em uma festa: “estamos em guerra com a Alemanha”.

É estranho, mas naquele momento senti uma pontada no coração, que se assemelha quase à morte de algum personagem querido em Game of Thrones. Era como se, de repente, aquela casa fosse desmoronar, vítima de um ataque aéreo, ou aquela fartura que mais me impressionava estivesse com os dias contatos. Resumindo: percebi ali que meus sonhos de chá da tarde ingles da série estavam terminados.

Eu só tinha duas opções: chorar ou mandar que o Netflix exibisse o primeiro capítulo da segunda temporada imediatamente.

E aí aconteceu algo que me fez dar valor ao video on demand: ficou nítida a mudança na série. Porque uma coisa é ver o último capítulo de uma temporada, esperar e esperar, e, enfim, no ano seguinte, começar a ver a próxima. Outra coisa é pular esse tempo e ir direto para os próximos acontecimentos.

A primeira cena já é em um cenário de guerra, com trincheiras, soldados… uma fotografia cinza, bem diferente do requinte de Downton Abbey, com seu amarelo ouro em fundo verde. É um contraste gritante.

Então naquele momento fiquei triste, vi que não veria mais jantares, a polidez dos empregados… tudo aquilo me encantava na série. Mas só depois fiquei mais triste ainda ao me lembrar que a parte da guerra não era ficção, foi verdade e ainda há pessoas vivas que presenciaram aqueles tempos difíceis.

Já vi muitos filmes de guerra, mas foi a primeira vez que realmente entendi a grandiozidade disso. Pense bem, quando vamos ver um filme de guerra ou ambientado em uma, nosso cérebro já está programado para ver a guerra. Então a mocinha pode sofrer horrores esperando seu amado voltar, a mãe pode chorar seu filho morto… afinal, o filme era de guerra, já estam todos avisados.

Mas quando pegam personagens que amamos, que viviam seus mundinhso perfeitos e, de repente, os jogam em uma guerra, ficamos indignados. Ao menos eu fiquei. Como pode um autor tão cruel mudar assim os rumos de suas vidas?

E não é necessário voltar ao passado para imaginar como uma guerra pode destruir os planos de muitas pessoas. Ainda destroi os planos de famílias sírias, de soldados norte-americanos mandados ao Afeganistão e também dos que lá no Afeganistão presenciam o horror em seus quintais.

Imagine um dia ficar sabendo que tudo o que você planejava precisa ser replanejado, que não poderá se casar, ou que viverá longe dos seus filhos, ou que lhe faltará comida… ou que tanta coisa ruim pode acontecer.

Em nosso frágil mundo, aprendi uma lição com Downton Abbey: que o chá da tarde em casa é realmente algo extraordinário e precisamos agradecer por isso. Até uma guerra bater à nossa porta.

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