O congresso uruguaio aprovou ontem a legalização da união civil entre homossexuais. Se você, sem essa informação, tivesse que pensar qual seria o primeiro país latino-americano a tomar tal decisão, qual escolheria? O Brasil, considerado tão open-minded? O Chile, que parece estar um passinho mais perto das “maravilhosas idéias de libertadade” da América? Ou a Argentina, já que Buenos Aires é considerada a capital do turismo gay no continente? Eu acho que responderia Uruguai.
Não, não tenho bola de cristal. É que nas duas vezes que estive nesse país a mentalidade do povo uruguaio me surpreendeu. Na primeira viagem, a Colonia, fiquei sabendo que a prostituição era legalizada e fiscalizada. Claro, não sei se a prática funciona bem, mas ao menos a teoria me parece muito interessante. A profissão de prostituta é reconhecida como qualquer outra, elas contribuem à previdência social e por isso têm direito a aposentadoria e outros benefícios (detalhe interessante: só essas profissionais e os das Forças Armadas se aposentam antes que os demais). Mas não é tão simples, têm que ser registradas e passar por exames médicos periodicamente.
Acho super válido, pois sabemos que a proibição nunca foi capaz de abolir a prosissão mais antiga do mundo (será mesmo?) e legalizá-la evitaria vários efeitos colaterais, como transmissão de doenças, tráfico de mulheres e prostituição infantil.
Já a minha segunda viagem foi a Montevidéu (com uma passagem rápida por Punta del Este). Numa tarde de feriado na capital uruguaia, a chuva me surpreendeu e tive que deixar meu passeio pelos lindos edifícios antigos para procurar abrigo numa caixa de sapatos gigante e impessoal chamada McDonald’s. Pedi um café (tenho que reconhecer, uma coisa que sinto muita falta da minha vida às margens do Río de la Plata são os cafés premium do Mc) e me sentei para ler El País e observar os uruguaios. Acontece que quanto mais eu andava pelas ruas, mas achava tudo muito parecido à Argentina. Não era para menos, um país tão pequeno não tinha condições de produzir para uma demanda tão limitada, era muito mais negócio importar do vizinho e nisso se deve incluir também a indústria cultural argentina. Procurando nas bancas, não encontrei nenhuma revista nacional, eram todas vindas do outro lado do rio. Muitos canais da TV eram argentinos também, repetindo a mesma programação que eu via em Buenos Aires.
Nas primeiras linhas do jornal, vi que também seguiam o padrão de escrita dos diários argentinos e então comecei a olhar em volta para saber o que tinham de diferentes. Foi quando chegou uma garota, de uns 18 ou 19 anos e se sentou na mesa ao lado. Fiquei observando sua roupa, que parecia muito às das argentinas e pensava “ai, por que pelo menos nisso eles não copiam do Brasil?”. Mas tudo bem, ela era inclusive mutio bonita. Alguns minutos depois chega outra menina, aparentando também a mesma idade e ao cumprimentá-la, para minha surpresa, lhe dá um beijo na boca, desses bem dados.
Confesso que me surpreendi com a naturalidade como as meninas se comportaram. Olhei ao redor e ninguém se alterou, como se não tivesse passado nada estranho. Na verdade, não tinha passado nada de mais, nem era da minha conta, mas convenhamos que não vejo isso todos os dias. Eu dividia meu tempo em ler o jornal, tomar meu café, olhar as garotas e me repreender pela minha curiosidade discriminatória.
Depois fiquei pensando na minha atitude e qual seria a dos demais se, em vez do Uruguai, estivéssemos no Brasil. Será que aqui, onde dizemos que somos um povo tão aberto, as pessoas simplesmente ignorariam a situação e seguiriam com seus cafés como se não tivesse acontecido nada?
Então fica a lição. A lei é excelente, mas na verdade o que importa mesmo é como o povo encara a questão. Talvez as duas hoje estejam felizes com a resolução, ou talvez nem se importem muito porque o principal já tinham: a liberdade de ser o que são.