Aqui na Argentina, que tem as estações do ano muito bem definidas, muita gente sai de férias em janeiro e fevereiro para aproveitar o verão. É impressionante ver a diferença no metrô e nos ônibus que vão muito mais vazios. Há menos pessoas nas calçadas, no cinema… enfim, a cidade se muda para o litorial – que pode ser o argentino ou o brasileiro. Na televisão não há nada, só reprise e há inclusive revistas que não se publicam nesta época! O Olé aguenta como pode distribuindo brindes e forçando as matérias sobre amistosos.
Até os blogs saem de férias e é muito comum que se republiquem textos. Então para entrar na onda da “reprise de verão” decidi também republicar alguns dos textos que tive mais feedback da gente neste últimos dois anos e meio.
Para começar, o mais aclamado sobre o cemitério da Recoleta:
Morte e arte em Recoleta
Pode parecer estranho, mas uma das atrações (e das mais visitadas) de Buenos Aires é o Cementério de Recoleta. Ontem queria descobrir se é veradeira uma teoria minha: que argentino não morre. Estou falando sério, moro perto desse cemitério e nunca vi um único enterro, sem contar que há vários hospitais perto e nunca ouvi barulho de ambulância. Está provado: vaso ruim não quebra… hahaha.Voltando ao tema, ou seja, à minha divertida (sério, é divertida!) visita ao cemitério… foi muito interessante porque neste último semestre tive que estudar muita coisa de história argentina para o mestrado e passear por aí é como viistar os personagens das histórias que minha professora contava. As visitas guiadas são gratuitas, em espanhol ou inglês (que pena, não tem em português) e duram cerca de uma hora e meia. Para quem acreidta que argentino bom é argentino morto (ai que humor negro, desde já peço desculpa a los hermanos, mas sabe como é, não podia perder a piada), recomendo a visita. Também a recomendo para quem aprecia arte, pois lá vai encontrar muitos túmulos tombados pelo patrimônio histórico. São monumentos construídos por renomados artistas argentinos e europeus com materiais nobres, principalmente mármore.
No século XVI os padres recoletos fundaram a Igreja de Pilar (que está ao lado do cemitério) e era aí onde os ricos eram enterrados. Era costume deixar os restos mortais dos ilustres da cidade na igreja e quanto mais próximo do altar, mais importante era a família. Depois de uma reforman político-religiosa na Argentina, foi determinado que não seriam mais enterradas pessoas nas igrejas, o que despertou um descontentamentos nos ricos. Para compensar, as famílias abastadas resolveram então constrir suas próprias capelas para enterrar seus mortos ao lado da igreja. Foi assim que começou a construção das tumbas de Recoleta.
A entrada do cemitério é linda e luxuosa, com um portal marcado com várias figuras, cada uma representando algo, como eternidade, luz, paz, essas coisas… Também está representado aí o dia a passagem bíblica que diz que um dia os anjos tocarão as trombetas e todas as almas se levantaram das tumbas (eu torcia para que não fosse ontem).
Para mim (opinião pessoal) o Cementério de Recoleta une duas características que notei nos argentinos: a ostentação e o culto exagerado aos mortos. Todo mundo que morre aqui vira santo e nem precisa ser uma Evita Perón, pode ser qualquer famoso, como um cantor que bebeu todas e morreu na estrada que liga Buenos Aires a La Plata. Na beira da pista tem uma capela onde vão visitantes pedir ajuda (ao menos, foi o que me contaram). Nem vou falar o caso de Gardel… coitados, deixem os mortos descansarem em paz!
As tumbas (ou capelas, como queira chamá-las) realmente são lindas, com muitas esculturas grandes e caríssimas. Algumas foram copiadas de obras de arte européias e feitas por artistas importantes. Além de contar um pouco da história argentina, o guia vai contando as histórias que cercam o cemitério. Há histórias dignas de tango! Três me chamaram a atenção pela forma trágic como morreram las jovens. Uma, a filha do General Mitre (quem é de fora, não conhece, mas aqui foi muito importante) pede ao seu pai que dispense seu noivo de ir à guerra, mas ele não a escuta. Quando seu futuro marido morre, ela não aguenta e se afoga no Rio de La Plata com seu vestido de noiva.
Você achou isso trágico? Pior foi a história de uma menina que morreu no dia do seu aniversário de 18 anos quando se arrumava para ir ao Teatro Colón. Quando colocava o colar de diamantes que havia ganhado caiu morta. Um tempo depois, ao abrirem o caixão encontraram seu corpo arranhado e fora de lugar, o que mostra que estava